Esta resenha foi escrita por Thiago Augusto Corrêa, amigo do blog da Coleção Negra. Foi publicada originalmente no site http://www.todomundomente.blogspot.com/
O ALICIADOR, de Donato Carrisi
A Itália tem nos dado bons escritores policiais. Basta observar duas das mais prolíficas coleções do gênero no Brasil: a Coleção Negra, da Record e a coleção com bordas coloridas, da Companhia das Letras, para constatar diversos autores italianos, alguns com livros merecedores de prêmios. Desta seleção, Andrea Camilleri é, provavelmente, um dos maiores da contemporaneidade com uma obra sólida.
Nascido em Martina Franca, Donato Carrisi se apresentou como mais um bom escritor em seu incrível 'O Aliciador', seu romance de estreia.
As bases que sustentam a trama foram escolhidas com precisão, e nos apresentam seis braços de meninas desenterrados de um bosque logo no início do livro. Fazendo uso equilibrado do chocante crime envolvendo crianças,imagens e cenas que sempre chocam e cativam, forçando os leitores a lerem mais e mais.
As personagens são construídas em dois núcleos: a equipe que investiga a ação, centralizada por Goran Gavila, um civil com habilidades tão afiadas para investigação que acaba por tornar-se um consultor da polícia nos casos difíceis. No outro núcleo temos Mila, uma policial perita em traçar perfis de sequestradores, que recém-salvou uma garota mantida em cativeiro por um molestador. Evidente que os dois núcleos se fundem em um, fazendo de Mila a novata do Grupo de Gavila.
As personagens do time de investigação são bem compostas, dando a completude de um grupo de verdade. Especialistas de diversas áreas que apoiam a investigação do outro e personalidades fortes em combate.
As bases criminais e forenses são transpassadas de uma maneira verídica para a narrativa. Cenas brutais de assassinatos não são poupadas a quem as lê. É a procura pelo choque no leitor que causa a ânsia por conhecer mais a história. Esse é um ponto trabalhado com excelência por Carrisi.
O enredo é firme e se vira ao avesso diversas vezes, características típicas do gênero policial. Mas, mesmo com os giros, ela não perde a sua força. Mais do que uma mera tentaiva de causar um efeito-surpresa, as mudanças que ocorrem na trama são resultado de um movimento maior.
O aliciador do título remete a conclusões tiradas no decorrer da investigação, mas a dúvida permanece até o final do livro.
Sua bela capa corrobora os acontecimentos da trama, com uma imagem escura e uma personagem com traços pouco precisos: um personagem quase invisível e que está sempre um passo a frente.
A escolha do título em português parece boa, já que seu original 'Il suggeritori', pelas minhas pesquisas, remete a alguém que sugere algo a outrem. Sendo assim um homem que lifa bem com as palavras: um aliciador.
O livro está nas listas de mais vendidos na Itália e foi o vencedor do Premio Mediterraneo del Giallo e del Noir (Prêmio Mediterrâneo para thrillers e romanes policiais/Noir).
Surpreende por ser um romance de estreia coeso e pesado, dando bons indícios de que Carrisi pode figurar entre os grandes escritores se continuar apresentando histórias nessa mesma estrutura ou ainda superiores.
( A foto acima é de Thiago Augusto Corrêa e foi retirada de seu blog)
Atos violentos sempre deixam marcas, muitas vezes eternas.
Mais um assassinato na cidade pode ser comum para os relatórios da polícia, mas pode significar uma grande perda para uma criança de dez anos. Especialmente quando a assassinada fora sua mãe.
É dessa maneira violenta que James Ellroy, um dos grandes escritores policiais da atualidade, vê sua vida desmoronar na infância e passa a viver em rupturas, com diversos problemas para enfrentar a realidade. Seu novo abrigo é o mundo violento da literatura barata, e nos livros dados por seu pai alcoólatra, nos quais descrevia diversos casos violentos da polícia de Los Angeles, muito deles tão chocantes que não eram permitidos de serem transmitidos na televisão.
Um deles em particular chama a atenção do garoto, com então onze anos: Elisabeth Short, encontrada em um terreno baldio com o corpo cortado ao meio. Torturada por dois dias, com marcas de cigarro nos seios, retalhos por todo o corpo e um corte de orelha a orelha. A vítima ganhou o nome de Dália Negra, dado por um repórter, ao saber que ela só trajava preto.
O caso brutal se tornaria um dos maiores eventos da mídia local e transformar-se-ia na obsessão de Ellroy. O crime era como uma substituição da morte de sua mãe. Assim, passou a investigar o caso, pesquisando em bibliotecas tudo o que fosse possível encontrar sobre Elisabeth Short.
Os anos seguintes de sua leitura sobre o crime foram os piores de sua vida. O autor caiu nas drogas, foi preso diversas vezes e descobriu que sua paixão pela narrativa policial e sua obsessão de infância poderiam lhe render boas ideias. Assim, deu início a um texto sobre um assunto em que tinha um vasto conhecimento: A Dália Negra.
O assassinato de Elisabeth Short é o ponto de partida do livro A Dália Negra (Ed. Record, 430 pág.). Situado em uma Los Angeles dos anos 40, pós guerra, repleta de personagens ambíguos e violentos, mulheres fatais e homens corruptos. Ingredientes perfeitos para a composição de um romance noir.
É nesse ambiente hostil que somos apresentados a dois ex-pugilistas, que possuem conflitos com o passado, mas são obrigados a enfrentá-los para resolver esse crime. A narrativa apresenta a visão de um deles, o “Sr. Água” Bucky Bleichert, narrador-personagem essencial para uma trama em que as percepções se alteram em seu decorrer. Na história conhecemos sua amizade com o “Sr. Fogo” Lee Blanchart e a grande obsessão de ambos em resolver um caso, aparentemente, sem solução.
Partir além desse ponto sobre comentários da trama, é revelar intricadas linhas de relações que se estabelecem durante a leitura. E que devem ser descobertas, justamente, no ato. Na grande habilidade de Ellroy em conduzir uma narrativa policial sem perder o fôlego e mantendo bons ganhos de suspense e ação para o leitor.
A nova edição do livro foi lançada com a capa do filme homônimo, dirigido por Brian de Palma, que transformou em pastiche a excelente história do autor. O que também é negativo pelo fato da nova capa perder o belo padrão estético dos livros da Coleção Negra, como as antigas, com as características capas pretas com uma pequena ilustração em detalhe.
A capa original da obra, traz uma breve citação da revista People, “uma obra prima”. É necessário concordar, Dália Negra é um dos grandes livros policiais da literatura contemporânea, pela narrativa bem amarrada, ágil, violenta e arrebatador.
Chega a ser irônico que a morte real e brutal de uma jovem tenha trazido à tona uma excelente ficção, inspirada pelo fascínio de um jovem pela dor e perda da mãe e, também, dedicada a sua memória.